Ainda de tijolo em tijolo

30/08/2017 - Monacelli
AEROPORTO DE BERLIM-BRANDEMBURGO EM 2010 (Foto:Michael F. Mehnert)

AEROPORTO DE BERLIM-BRANDEMBURGO EM 2010 (Foto:Michael F. Mehnert)

“O artigo publicado pelo ‘The Economist’ trata da produtividade na construção civil e reflete a realidade que não é privilégio nosso, pois a ineficiência ocorre no mundo todo.

De uma forma geral, vejo que a falta de comprometimento para gerar a eficiência desejada está em todos os níveis da cadeia, desde o gerador da demanda até a execução final da obra, passando pelo planejamento e o desenvolvimento de todos os projetos necessários.

Vejo, também, a falta de liderança para a interação dos diversos interesses de todos os envolvidos no processo, dando o devido valor e a necessária responsabilidade, sem transgredir a autoridade de cada competência.”

Marcel Monacelli


 

Ainda de tijolo em tijolo

Há nove anos, foi lançada a pedra fundamental do aeroporto de Berlim-Brandemburgo. A obra deveria ter sido inaugurada em 2012, a um custo de € 1,2 bilhão (US$ 1,8 bilhão), atendendo a 34 milhões de passageiros por ano. Ainda hoje, porém, os únicos que circulam por seus terminais são pedreiros, serventes e outros operários. Com um custo atual equivalente a seis vezes o orçamento original, a obra teve 66,5 mil erros de construção que precisaram ser refeitos.

O aeroporto de Berlim é um exemplo extremo de um problema mais amplo. À primeira vista, a indústria da construção civil parece saudável. Em termos mundiais, movimenta US$ 10 trilhões. A seguradora Euler Hermes projeta crescimento de 3,5% para este ano. Apesar disso, mais de 90% das obras de infraestrutura atualmente em andamento no mundo estão atrasadas ou estouraram o orçamento original, diz Bent Flyvbjerg, da Saïd Business School, da Universidade de Oxford. Até as empresas de tecnologia sofrem com o problema. A nova sede da Apple, no Vale do Silício, será inaugurada com dois anos de atraso e custou US$ 2 bilhões a mais do que o previsto originalmente.

Segundo a consultoria McKinsey, a indústria da construção civil exibe a distinção duvidosa de ter ganhos de produtividade mais baixos que qualquer outro setor de atividade. Nos últimos 20 anos, a média mundial de valor adicionado por hora registrou crescimento anual de cerca de 1%, taxa correspondente a apenas 25% da observada no setor industrial. Nos países desenvolvidos, a tendência é especialmente preocupante. No mesmo período, na Alemanha e no Japão, modelos de eficiência industrial, o setor da construção civil praticamente não obteve ganhos de produtividade. Nos EUA, a queda é ainda mais assombrosa: 50%, do fim da década de 60 para cá.

A culpa não é dos preços dos materiais de construção, que são excluídos dos cálculos de valor adicionado (e que, de qualquer forma, não subiram). E pode ser apenas em parte atribuída ao cumprimento de normas mais rígidas.

O papel de duas tendências estruturais é mais importante. Em primeiro lugar, o setor da construção civil vem fazendo uso menos intensivo de capital, substituindo máquinas por trabalhadores. A volatilidade na demanda leva as empresas do setor a conter os investimentos. “A indústria da construção civil está sempre de prontidão para a chegada de mais uma recessão”, diz Luc Luyten, da consultoria Bain & Company. O investimento em máquinas impõe custo fixos elevados. Quando a economia entra em desaceleração, é mais fácil demitir trabalhadores do que cortar esses custos.

Em segundo lugar, o setor não passou por grandes consolidações. Em tese, as construtoras mais eficientes deveriam engolir as ineficientes. “Aparentemente, a indústria da construção civil contraria Adam Smith nesse aspecto”, diz Luyten. Isso se deve, em parte, ao fato de que a legislação varia, impedindo o ganho de escala.

Atualmente, há cerca de 730 mil obras em andamento nos EUA. Em média, há dez operários trabalhando em cada uma delas. A concorrência é acirrada e as margens de lucro só não são mais estreitas do que as observadas no varejo.

Por outro lado, não faltam exemplos de caminhos para aumentar a produtividade, como os guindastes guiados por controle remoto e as retroescavadeiras autônomas. E há iniciativas em massificação da produção. Apenas 20% de cada casa e edifício erguido pela construtora BoKlok é feito no local da obra. O restante é produzido em plantas industriais. Isso permite padronizar elementos construtivos e cortar custos.

Os maiores ganhos de produtividade se concentram na China. O aquecimento do mercado de trabalho tem levado as construtoras do país a experimentar a automação. A WinSun, por exemplo, já construiu edifícios utilizando impressão 3D. Com os avanços da construção em módulos, uma empreiteira ergueu um edifício de 57 andares em apenas 19 dias. O fato, porém, é que essas técnicas permanecem pouco utilizadas. Para a maioria das construtoras, as margens estreitas e o fantasma de novas recessões continuam a restringir os investimentos.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

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